Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2007

Reportagem do Clã Mahatma (Semana 3)

    Apresentamos neste post a nossa reportagem – Tarefa da Semana 3 – cujo tema é “O homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado”, ideia inicial de Jacinto, protagonista da obra em análise A Cidade e as Serras de Eça de Queirós.

    Após uma leitura e análise minuciosa da obra, decidimos elaborar a nossa reportagem segundo dois pontos de vista: imaginámo-nos um repórter do século XIX, que conheceu Jacinto no comboio (quando este se dirigia a Tormes) e que resolveu acompanhá-lo para estudar a sua tese de vida. À reportagem do século XIX, acrescentámos uma reflexão nossa, agora na qualidade de repórteres do século XXI, na perspectiva de actualizarmos a visão do jornalista que acompanhou Jacinto, apresentando assim a nossa ideia relativamente à tese de Jacinto e ao concurso da tecnologia para a felicidade do Homem. Seguimos as passadas do repórter do século XIX e deslocámo-nos até Tormes, onde visitámos a antiga casa dos Condes de Resende, casa onde se desenrola a maior parte da acção da obra A Cidade e as Serras. Aí tivemos o prazer de conhecer a viúva do neto de Eça de Queirós, que habita a casa, e que teve a amabilidade de nos receber.
    Optámos por fazer uma reportagem em formato papel, pois o jornal era, na época de Eça de Queirós, e é, hoje em dia, o meio de comunicação por excelência, pois conserva em si as virtualidades da verdadeira reportagem: transmite informação, que se pode ler e reler, para melhor se apreender. Guarda-se para se consultar sempre que se quiser. Na reportagem não falta uma pitadinha de humor, apresentam-se fotografias e a narração de eventos entrecruzados, pois o repórter preocupou-se em investigar e entrevistar quem melhor o poderia esclarecer sobre o assunto em questão.

 

"O homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado" (Ideia de Jacinto, protagonista de A Cidade e as Serras)



 

 

Nota: Para mudar as páginas do jornal basta passar o cursor nos cantos da página e clicar uma vez. Para uma visualização mais divertida, clique nos cantos e arraste a página.

 

Fontes:

BARROS, Nazaré e FERNANDES, Marcello, Filosofia 10º, Lisboa Editora, 2006
 
CARRIÇO, Lilaz, Literatura prática, 11º ano, Portoeditora, 3ª edição, 1982
 
COELHO, Jacinto do Prado, A letra e o leitor, Portugália editora, 1969
 
ECO, Humberto, “Ciência, Tecnologia e Magia”, discurso proferido em Roma, em Novembro de 2002, in A Passo de Caranguejo, Difel, 2007
 
LEBRE, António, Eça em Verdemilho e a sua Vida, Tipografia Lusitânea, 1962
 
QUEIROZ, Eça de, A Cidade e as Serras, Livros do Brasil, Lisboa, Novembro de 2005
 
QUEIROZ, Eça de, Notas contemporâneas, Livros do Brasil, Lisboa, s/d
 
REIS, Carlos, Técnicas de análise textual, Livraria Almedina, Coimbra, 1976
 
WIKIPÉDIA. Civilização. Acedido em: 2, Março, 2007. Wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Civiliza%C3%A7%C3%A3o
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Segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2007

Entrevista a Eça de Queirós (Semana 2)

Apresentamos aqui a entrevista completa que fizemos a Eça de Queirós. Tivemos como principal objectivo a elaboração de um texto preciso e verídico, pelo que as respostas são baseadas em informações acerca do autor (que se podem consultar nas fontes que indicamos). Outras partem do conhecimento que temos do autor e das conversas que mantivemos com alguns professores e leitores de Eça de Queirós.
·         Mahatma – Desde já agradecemos a sua amabilidade ao conceder-nos esta entrevista. Como sabemos que o tempo disponível é escasso, vamos fazer os possíveis por ser breves. Começamos por confessar que temos qualquer coisa em comum… nós somos de Aveiro e… gostamos muito de ler! Sabemos que viveu durante algum tempo aqui, na nossa zona, mais precisamente na Costa Nova. No entanto, sabemos também que viajou pelo mundo. Diga-nos, por favor, como foi ver lugares estrangeiros.
·         Eça de Queirós – Bem, a minha primeira viagem foi em 1869, pelo Egipto e Canal do Suez em companhia do Conde de Resende. Esta viagem deu-me novas visões de tudo, e foi precisamente dela que nasceram as primeiras páginas de A Relíquia. Mais tarde viajei para Havana, em Cuba, onde exerci o cargo de Cônsul durante dois anos. Em 1873, rumei aos Estados Unidos, Canadá e América Central. Logo após estas maravilhosas e enriquecedoras deslocações, fui transferido para o consulado de Newcastle, em Inglaterra, onde mais tarde viria a concluir O Primo Basílio. Regressei a Portugal e aí permaneci por algum tempo, indo de seguida para França, mais propriamente Paris, uma cidade deslumbrante com maravilhas extraordinárias. Permaneci em Paris, onde vivo actualmente, e onde pretendo passar o resto da minha vida.
 
·         Mahatma – Será que nos poderia contar então um pouco acerca da sua carreira diplomática?
 
·         Eça de Queirós – A minha carreira diplomática começou quando fui nomeado cônsul em Havana em 1872. Durante estes tempos, o meu grande objectivo foi melhorar a vida dos emigrantes chineses, vindos de Macau, que eram submetidos a uma vida quase de escravidão. Durante este período também fiz uma grande viagem pelos Estados Unidos e pelo Canadá.
Durante os anos em que estive em Havana escrevi o conto "Singularidades de uma rapariga loira" e a primeira versão de O Crime do Padre Amaro.
Entretanto, em 1874, fui transferido para Newcastle. Quatro anos depois voltei a mudar-me, dessa vez fui para Bristol.
Finalmente, em 1888, mudei-me para o consulado de Paris, onde estou agora.
·         Mahatma – Sabemos que o seu pai foi um dos fundadores do Teatro Académico e que Eça foi ali actor. No entanto, sabemos também que é uma pessoal tímida... Como conseguiu compatibilizar a timidez com a representação?
 
·         Eça de Queirós – Ah! A minha grande dificuldade sempre foi a dicção... Pronunciar as palavras correctamente era um grande desafio para mim, pois havia algumas nas quais tinhas uma particular dificuldade. Houve uma – solidariedade – que até tomei a liberdade de cantar, na noite de representação, para poder separar sílaba por sílaba...
 
·         Mahatma – Há tantas perguntas que gostávamos de lhe fazer! Vamos começar por uma acusação que Pinheiro Chagas lhe fez: falta de patriotismo. Como reagiu? 
 
·         Eça de Queirós – Quando eu estava em Bristol, Pinheiro Chagas acusou-me de “ter injuriado e decomposto Portugal”. Escrevi-lhe a 14 de Dezembro de 1880, respondendo que “amo o meu país dum modo diferente, dum modo íntimo – e burguês como eu.” Apetecia-me ler-vos algumas passagens dessa minha carta, que podem consultar na colectânea de textos intitulada Notas contemporâneas (editora Livros do Brasil). Respondo a Pinheiro Chagas e faço-lhe ver o que é o verdadeiro patriota. E escrevi-lhe uma segunda vez, para lhe garantir que “há cousas na minha pátria que eu amo profundamente e há homens na minha pátria que eu profundamente admiro. Somente creio que as nossas admirações não são as mesmas. Você vive num mundo fictício, convencional, artificial, por que eu apenas me posso interessar como artista, seguindo-o com um olhar curioso e triste, nesse abismo por onde ele vai rolando aos abismos (…).” É certo que nesta carta que lhe escrevi de Bristol, em 28 de Janeiro de 1881, transmiti-lhe a minha opinião sobre muitos assuntos, mas não vos vou maçar mais. O essencial está no facto de eu criticar o meu país como um patriota que respeita a tradição, mas que se ocupa do presente, “procurando perceber [a pátria] as aspirações, dirigir-lhe as forças, torná-la mais livre, mais forte, mais culta, mais sábia, mais próspera, e por todas essas nobres qualidades elevá-la entre as nações.” (“Brasil e Portugal” – carta de 14 de Dezembro de 1880 a Pinheiro Chagas, in Notas Contemporâneas)
Aliás… bastava olhar para Portugal! Não se sentia uma lufada de ar fresco, mas respirava-se             mediocridade… Desculpem, ser assim tão directo! Esta é uma qualidade da qual não me arrependo! As pessoas só se preocupavam com o aspecto exterior, com os chapéus, as toilettes e os mexericos da sociedade. Contos ou romances, através deles tentei denunciar o que me parecia medíocre: os excessos do progresso, os escândalos dos jornais, o desregramento de algumas vidas.
·         Mahatma – As suas obras são conhecidas pela crítica à sociedade, em concreto às diferentes classes sociais. Quer comentar?
 
·         Eça de Queirós – Bem, o único comentário que posso fazer é o facto de ser um homem bastante atento ao que se passa em meu redor, daí se dizer que sou excelente conhecedor da minha época. Nas minhas críticas tentei ser o mais rigoroso possível, apresentando um retrato fiel da sociedade. Há quem diga até que as descrições que faço das diferentes classes sociais são “verdadeiros tesouros de minúcia, documentos históricos altamente fidedignos, tendo sempre em conta claro, um certo ponto de vista pessoal, bem como o toque de humor tão característico de minha pessoa.” (in “http://www.vidaslusofonas.pt/eca_de_queiros.htm”)
·         Mahatma – A sua primeira obra é uma crítica mordaz ao clero. Sabe que vai ser adaptada ao cinema por um realizador português, em 2006?
 
·         Eça de Queirós – Sim, comecei com uma sátira anticlerical. Há 131 anos, foi publicado O Crime do Padre Amaro, em 1876. Parece que agora é então uma obra adaptada ao cinematógrafo?! Que bom seria que os espectadores não assumissem unicamente um papel passivo e lessem os meus escritos. Aí sim, ficava satisfeito. Se os meus textos são adaptados ao cinema, só espero que esse seja um modo de se criar um clube de fãs dos meus textos.
 
·         Mahatma – Há quem diga que Eça de Queirós foi o grande modernizador da prosa portuguesa. Como se sente quando lhe atribuem essa característica?
 
·         Eça de Queirós – Sempre tive uma visão muito própria da realidade e debati-me permanentemente entre a razão e a imaginação. Se por um lado me atraiu tudo aquilo que dizia respeito à existência humana, as desgraças da vida, aquilo que era feio, malévolo e ridículo, por outro lado eu precisava de associar à minha prosa a beleza, a fantasia, a poesia. Por isso, há quem diga que o meu estilo concilia a ideologia racionalista da minha época e o meu temperamento de português – emocional, lírico sonhador.
Quanto ao meu estilo, haveria muito a dizer. Como se sabe, quis criticar a sociedade com uma certa elegância, o que me levou a desenvolver uma finura irónica e caracterizaram-me como um hábil caricaturista. Sim, “vamos rir, pois. O riso é uma filosofia. Muitas vezes o riso é uma salvação. E em política constitucional, pelo menos, o riso é uma opinião.” (in Uma Campanha Alegre, citado por Lilaz Carriço, Literatura prática, 11º ano, Porto editora, 3ª edição, 1982)
A linguagem das minhas obras impôs-se quase sem eu dar por isso, mas o certo é que eu a trabalhei muito.
·         Mahatma – Trabalhou? Como se trabalha a linguagem?
 
·         Eça de Queirós – Preocupei-me em valorizar o adjectivo, socorrendo-me dele em inúmeras situações: caracterização de personagens com um novo sentido, servindo-me de hipálages, muito citadas pelos estudantes de hoje – “fumar um cigarro pensativo” é uma das mais conhecidas; descrição de paisagens, ora mais realista, ora parnasiana. Enfim, muitos foram os estudiosos que se dedicaram a esta minha característica, como Ernesto Guerra da Cal.
 
·         Mahatma – Apesar de ser um escritor contemporâneo dos ultra-românticos, rapidamente se afastou deles.
 
·         Eça de Queirós – É verdade, depois de uma primeira fase romântico-lírica, passei para a fase realista, em que a influência de Zola, por exemplo, me levou a escrever cenas de um manifesto naturalismo. Estávamos na altura em que a hereditariedade, a educação e o subconsciente freudiano apontavam caminhos para a compreensão do ser humano. É nessa altura que o realismo domina as minhas obras. Há uns tempos escrevi ao redactor da “Revue Universelle”, a propósito do conto fantástico O Mandarim: “Os portugueses são medularmente idealistas e líricos, apreciam as emoções excessivas traduzidas numa linguagem em que o lirismo e sátira se realizem. A análise, a experiência, a realidade, as certezas objectivas não os atraem. O português actua pelo sentimento e não pelo raciocínio. Por isso, em Portugal não há crítica. Mas os tempos mudaram. Era necessária uma língua exacta, seca, coma a do código civil, para o naturalismo. Porém, o substrato emotivo nacional lá ficou e isso explica, volto a dizer que, mesmo depois do naturalismo, se escrevam ainda contos fantásticos.” (in Lilaz Carriço, op.cit.)
 
·         Mahatma – Fale-nos de um dos aspectos importantes para o Naturalismo.
 
·         Eça de Queirós – É por demais conhecida a minha preocupação com o tema da educação. Modéstia à parte, penso que deixei uma ou outra personagem de que todos os portugueses falam. Estou a lembrar-me do Eusebiozinho. Quem leu Os Maias não estranha esta minha referência, pois este rapazinho, que depois cresce e se torna num homem dependente e pouco simpático, é motivo de grande alarido quando se estuda o capítulo em que traço o retrato dele. Coitado! Por causa da educação que a mamã e a titi lhe deram, nunca foi capaz de andar à bulha com o seu amigo Carlos, e mais tarde revelou-se um homem fraco, agarrado a umas espanholas, que faziam furor na Lisboa de novecentos! E, claro está, tenho de me referir a Carlos, esse educado pelo avô, com austeridade e também amor. Era um menino bem disposto e com muitos objectivos na vida.
 
·         Mahatma – Desculpe interromper, mas Carlos da Maia acabou também por fracassar na vida, de forma diferente de Eusebiozinho, mas não deixou de ser um fracasso.
 
·         Eça de Queirós – Bem, sim, sim. Mas aí está a outra condicionante da vida: a influência do meio. Meus caros, apesar de ter herdado o carácter forte de seu avô, Afonso da Maia, Carlos apaixonou-se e deixou-se levar pelo sentimento. Aliado a esse aspecto, esteve a vida de Lisboa, que o convidava à dormência, ele que tanto gostava de um bom ambiente, “chique a valer” diria outra famosa personagem – Dâmaso Salcede. Mas… se fosse para falar das personagens de Os Maias, nunca mais saímos daqui… e depois… tenho outras personagens também muito interessantes… Mas desafio-vos para uma entrevista depois de vocês mesmos conhecerem o Ega, o Alencar, o Teodorico, o Jacinto, o José Fernandes, a Amélia, o Conselheiro Acácio, o Basílio, enfim… são tantas personagens!... Até já lhes perdi a conta!
 
·         Mahatma – Essas personagens são inventadas por si?
 
·         Eça de Queirós – Sim, claro que são! (aborrecido)
·         Mahatma – Mas… não se inspirou na vida de ninguém para nenhuma?  
 
·         Eça de Queirós – Sim… hum… sim, até se diz que Ega, o João da Ega, amigo de Carlos da Maia, é o meu alter-ego… Mas… hoje, não vamos falar mais dessa família e dos seus amigos. Só gostava de vos informar que tive mesmo de fazer uma declaração por escrito a propósito do Tomás de Alencar, que não é uma personificação do Senhor Bulhão Pato. Escrevi mesmo a Carlos Lobo de Ávila, garantindo-lhe isso mesmo. (in Lilaz Carriço, op.cit.)
 
·         Mahatma – Como resumiria a sua intervenção junto dos leitores portugueses?  
 
·         Eça de Queirós – Penso que consegui chamar a atenção do povo português e pô-lo a pensar, sobretudo foi isso que quis: pô-lo a pensar. E claro que muitas vezes os meus leitores riam-se e riam-se muito… mas é capaz de ser a forma mais fácil de fazer chegar aquilo que pensamos. Tentei dissecar a sociedade para apresentar aquilo que ela tinha de mais torpe. Reconheço, porém, que nós “perdemos o dom divino do riso”, como expliquei na minha crónica sobre “A Decadência do riso”, que publiquei na “Gazeta de Notícias”, em 1891.
 
·         Mahatma – Não se importava de nos explicar um pouco melhor essa ideia?
 
·         Eça de Queirós – Com todo o gosto. “Eu penso que o riso acabou – porque a humanidade entristeceu. E entristeceu – por causa da sua imensa civilização. O único homem sobre a Terra que ainda solta a feliz risada primitiva é o negro de África. Quanto mais uma sociedade é culta – mais a sua face é triste.” (“A Decadência do riso” in Lilaz Carriço, op.cit.)
 
·         Mahatma – Essa reflexão faz-nos pensar na obra que estamos a ler A Cidade e as serras. Parece que está a falar de Jacinto e da sua evolução enquanto pessoa preocupada com a civilização. Mas… noutra ocasião consultá-lo-emos sobre essa obra. Agora, talvez nos pudesse dizer o que pensa da evolução do mundo neste último século.
 
·         Eça de Queirós – O mundo evoluiu muito depressa. O microcosmo que eu conhecia ampliou-se de tal modo que deixa qualquer um atónito e perplexo. Globalizou-se, as pessoas andam cada vez mais depressa, embrenhadas em tecnologia que quase as automatiza. Não discordo, note-se, desta evolução! Mas se ela priva o Homem de se afirmar como tal, está desvirtuada e adulterada. Penso que todo este avanço é benéfico, mas o Homem não deve tornar-se escravo dele.
 
·         Mahatma – Considera que a sua visão da sociedade do seu tempo ainda se revê nos nossos dias? 
 
·         Eça de Queirós – Talvez. Penso que a minha visão foi de tal modo globalizante, como agora se gosta de dizer, que quem lê alguns dos meus romances e contos fica com a sensação de que o mundo não evoluiu e que continuamos todos na mesma. Estranho, não vos parece?!
A burocracia, os políticos corruptos, o dandismo de determinadas pessoas, os burgueses cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres, os vícios de um certo grupo de pessoas ligadas à Igrejas, enfim, esse é um trabalho de reflexão que espero que quem leia a minha obra consiga fazer. Vai chegar à conclusão de que, apesar de muitas alterações positivas, conseguidas graças ao progresso tecnológico, há sempre pessoas que são mesquinhas e que só vêem aquilo que lhes trás proveito, independentemente de afectar pessoas alheias ou não.
·         Mahatma – Já ouvimos falar das Conferências do Casino. Quer-nos falar um pouco dessas famosas tertúlias que entusiasmaram a capital portuguesa em 1871?
 
·         Eça de Queirós – Claro! As Conferências do Casino partiram do meu amigo, o grande poeta Antero de Quental, que suscitou aos membros do Grupo do Cenáculo o entusiasmo necessário para que se concretizassem. Eu e mais alguns dos membros assinámos então um manifesto, no qual indicávamos a vontade de ponderar sobre a política e a sociedade actualmente existentes no mundo e investigar os prós e os contras da sociedade actual, bem como dedicar tempo de estudo às novas ideias e correntes do século.
O nosso principal objectivo era contribuir para o desenvolvimento do país, alertando-o para as novas ideias presentes no resto da Europa.
·         Mahatma – Sabemos que proferiu uma conferência, mas também sabemos que não se realizaram todas as previstas. O que aconteceu?
 
·         Eça de Queirós – Pois, o estado sentiu-se “ameaçado” pelas ideias que lá surgiam e recorreu ao único meio de que ainda dispunha: a força. Forçaram-nos a terminar as Conferências do Casino, alegando que eram polémicas e que atacavam as instituições do estado e a religião. Ainda se concretizaram cinco, tendo sido na quarta que participei: “A Literatura Nova” ou “O Realismo como nova expressão da arte”.
 
·         Mahatma – Obrigada pelo tempo que nos dispensou. Se não for muito incómodo, voltaremos noutra ocasião para trocarmos algumas impressões mais sobre o Grupo dos Vencidos da Vida, as suas críticas mordazes à política da época e as suas últimas obras. Vamos continuar a ler o que escreveu.
 
·         Eça de Queirós – Voltem sempre. E leiam, leiam, que vão descobrir que afinal o mundo não mudou assim tanto!
 
Fontes:
BORREGANA, António Afonso (autor e editor), O Texto em Análise II, 3ª ed, s/d
CARRIÇO, Lilaz, Literatura prática, 11º ano, Portoeditora, 3ª edição, 1982
FUNDAÇÃO EÇA DE QUEIROZ. Acedido em: 15, Fevereiro, 2007. Fundação Eça de Queiroz: http://www.feq.pt/cronologia.aspx
LOURES, Carlos. Eça de Queirós. Acedido em: 28, Fevereiro, 2007. Vidas Lusófonas: http://www.vidaslusofonas.pt/eca_de_queiros.htm
PINTO DE CASTRO, Aníbal, Eça de Queirós, da realidade à perfeição pela fantasia, edição dos CTT, Julho de 2001
QUEIROZ, Eça de, A Cidade e as Serras, Livros do Brasil, Lisboa, Novembro de 2005
QUEIROZ, Eça de, Notas contemporâneas, Livros do Brasil, Lisboa, s/d
UNIVERSIDADE DE COIMBRA, INSTITUTO DE ESTUDOS JORNALÍSTICOS. Acedido em: http://www.uc.pt/iej/alunos/1998-99/equeiros/socecul.html
WIKIPÉDIA. Eça de Queiroz. Acedido em: 20, Fevereiro, 2007. Wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/E%C3%A7a_de_Queiroz
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Domingo, 11 de Fevereiro de 2007

Eça de Queirós

    Eça de Queirós nasceu em 1845, filho de José Maria de Almeida Teixeira de Queirós e de Carolina Augusta Pereira de Eça. Passou a sua infância e adolescência na região do Minho e na Costa Nova, praia do distrito de Aveiro. Matriculou-se na Universidade de Coimbra, onde se formou em Direito, e exerceu magistratura em Lisboa. O facto de ter sido aluno e colega de alguns dos mais notáveis escritores do século XIX, como Ramalho Ortigão e Antero de Quental, marcou definitivamente o percurso literário de Eça de Queirós. Foi um dos protagonistas da Questão Coimbrã, contrapondo aos escritores ultra-românticos as suas ideologias sociais, que se fizeram sentir duramente nos romances e contos que escreveu. Não há dúvida de que ser realista, defendendo o positivismo e o naturalismo, é uma das características mais expressivas da obra queirosiana. Sabe-se contudo que, no final da vida, investe sobretudo em reflexões de carácter simbólico. A sua produção literária reparte-se entre romances e contos e uma colaboração assídua em vários jornais. Destaque-se ainda a criação da personagem literária – Fradique Mendes, em colaboração com Ramalho Ortigão, e a da Revista de Portugal, cuja publicação se estendeu entre 1889 e 1892.

    Eça de Queirós acreditava na capacidade de intervenção dos seus escritos, pelo que denunciava a corrupção e as consequências nefastas do progresso, de que o Homem e a sociedade usufruíam sem qualquer entrave. Também não se coibiu de denunciar, de forma nua e crua, as classes sociais que agiam de maneira aviltante perante os seus semelhantes. Escreveu em defesa do progresso e da civilização, criticando e valorizando aquilo que lhe parecia criticável e valorizável. Noutra fase, dos cenários urbanos passa para a vida psicológica das personagens, preferindo-a numa estratégia crítica aos excessos da Civilização.
    Embora todo o seu espólio literário seja digno de grande apreço, merecem-nos particular referência duas obras muito significativas que têm sido estudadas com grande proveito não só para a compreensão da época em que Eça viveu, mas também para o estudo do seu estilo tão peculiar: Os Maias, publicada em 1888, e a obra sobre a qual incidirá o nosso estudo - A Cidade e as Serras, de 1901.
    Eça faleceu em 1900, em Neuilly, na França, depois de uma vida marcada não só pelas suas obras literárias, mas também pela sua activa participação política, nomeadamente em Havana e Paris.
 
 
Algumas obras de Eça de Queirós e respectivas datas de publicação:
 
  • O Mistério da Estrada de Sinta (1870)
  • As Farpas (1871/1872)
  • “Singularidades de uma rapariga loira” (1874)
  • O Crime do Padre Amaro (1876)
  • O Primo Basílio (1878)
  • “No Moinho” (1880)
  • “Um poeta lírico” (1880)
  • O Mandarim (1880)
  • O mistério da estrada de Sintra (1884)
  • “Outro amável Milagre” (1885)
  • A Relíquia (1887)
  • Cartas de Fradique Mendes (1888)
  • Os Maias (1888)
  • Uma campanha alegre (1889)
  • “Civilização” (1892)
  • “Frei Genebro” (1893)
  • “O Tesouro” (1893)
  • “A Aia” (1894)
  • “O Defunto” (1896)
  • “Um Génio que era um Santo” (1896), In Memoriam de Antero de Quental
  • “A Perfeição” (1897)
  • “José Matias” (1897)
  • A Ilustre Casa de Ramires (1897)
  • “O Suave Milagre” (1898)
  • A Cidade e as Serras (1901)
  • A Capital (romance inacabado)
  • A Tragédia da Rua das Flores (romance inacabado)
  • Alves & Cª. (romance inacabado)
  • O Conde de Abranhos (romance inacabado)
  • Últimas páginas – manuscritos inéditos: “S. Cristóvão; “Sto Onofre; “S. Frei Gil”, Artigos diversos (Porto, Lello & Irmão, 1912)
Fontes:
 

FUNDAÇÃO EÇA DE QUEIROZ. Acedido em: 11, Fevereiro, 2007. Fundação Eça de Queiroz: http://www.feq.pt/cronologia.aspx

História da Literatura Portuguesa, Lisboa, editorial Presença, 1996, organização e direcção de Álvaro Manuel Machado
 
INSTITUTO PORTUGUÊS DO LIVRO E DAS BIBLIOTECAS. Acedido em: 3, Março, 2007. Eça de Queirós: http://www.iplb.pt/pls/diplb/!get_page?pageid=402&tpcontent=FA&idaut=1747898&tipo=&format=NP405
 
WIKIPÉDIA. Eça de Queiroz. Acedido em: 20, Fevereiro, 2007. Wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/E%C3%A7a_de_Queiroz
 
INSTITUTO CAMÕES. Eça de Queirós. Acedido em: 3, Março, 2007. Instituto Camões: http://www.instituto-camoes.pt/cvc/literatura/eca.htm

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Clã Mahatma

Equipa Mahatma

    Este é o blog do clã Mahatma, participante no Sapo Challenge II - Fase Criar, concurso que se insere na Aventura do Conhecimento. Somos cinco alunos da Escola Secundária Dr. Mário Sacramento de Aveiro: Ana Marta Pinto, Bernardo Domingues, Daniel Ferreira, Filipe Thomaz e Paulo Cunha, e todos frequentamos o décimo ano no curso de Ciências e Tecnologias. A nova vertente do concurso suscitou-nos um entusiasmo ainda maior e de imediato nos pareceu extremamente aliciante, pelo facto de conjugar dois dos nossos grandes interesses comuns: a tecnologia – nomeadamente no que toca à internet – e a leitura.

    No mundo actual é cada vez mais difícil dedicar tempo à leitura recreativa. As disciplinas que compõem o nosso currículo de estudos exigem bastante de nós e as horas que, imperiosamente, temos de dedicar ao estudo são bastantes. Para além disso, as novas tecnologias, sobretudo a internet, também preenchem algum do tempo livre de que dispomos. De qualquer modo, não descuramos a leitura e vemos nela a capacidade de viajar por outros mundos que nos permitam crescer humana e culturalmente.
    Partilhamos ainda outros interesses, como o desporto e o contacto com a natureza, e prezamos um estilo de vida equilibrado, com uma saudável versatilidade, razões que nos levaram à escolha do nosso livro: A Cidade e as Serras, do inegavelmente único e inigualável escritor português, Eça de Queirós. Esta obra surge-nos como extremamente motivante, porque confronta duas realidades: num primeiro momento, retrata a vida parisiense do final do século XIX, a agitação de uma sociedade repleta de inovação tecnológica, posta de lado na segunda parte do romance, numa opção inicialmente inconsciente por um modo de vida mais sereno e pacífico. É curioso observar como a personagem principal enfrenta a mudança radical que não lhe foi imposta por elementos exteriores, e como se adapta à vida sem o auxílio da tecnologia, nas Serras portuguesas longe da Cidade de Paris.
    Correcção: sem tecnologia, não! No final, rende-se à importação de um único aparelho: o telefone. Interessante? Sim, ou não fosse este um dos meios de primeira geração para manter as pessoas em contacto, para encurtar as distâncias.
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Quarta-feira, 7 de Fevereiro de 2007

A Nossa Escola




Escola Secundária c/3º CEB Dr. Mário Sacramento
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